A volta das voltas. Chegamos, partimos e lá voltamos sempre!

27
Fev 11

A mim, o que me sabia mesmo bem era o bitoque. Havia dias que escolhia outra coisa só para variar, nunca para substituir o bitoque. Sai um bitoque especial! Gritou o Marinho para a cozinha. Acompanhava com uma imperial especial de corrida tirada pelo António que, naquela 5ª feira, e desde que me sentei ao balcão há um quarto de hora, já discutiu com o Chico aí uma dúzia de vezes.

 

Ao meu lado direito, estava o Artur Caparica que continuava preocupado com a sensação de andar a ser seguido por um gajo de fato e chapéu de abas. No mesmo dia de manhã, sem ninguém por perto, tinha-me contado que, com um primo, estava a pensar dar o salto para França para não ir à tropa. Deu-me a entender ter a certeza de não querer ir para a Guerra e, a única solução, era pirar-se daqui para fora.

 

À luz daquela janela do terceiro andar, li no Diário de Notícias que, amanhã, num qualquer dia e mês de 1973 mas de certeza a uma 6ª feira, levantaria ferro do cais da Rocha Conde de Óbidos o navio “Niassa” com militares portugueses com destino a Moçambique. Acrescentava ainda a notícia que, "a defesa daquela parcela do território nacional, como o iam fazer estes valorosos soldados, sargentos e oficiais, era um desígnio patriótico a que nenhum português se pode furtar”.

 

Os sucessores do “botas” continuavam fiéis aos seus ensinamentos.

 

Na 6ª feira o Caparica não apareceu ao trabalho e o mesmo aconteceu na semana seguinte. Da janela do terceiro andar, olhando para Cacilhas e Almada, tentava imaginar o que lhe teria acontecido. Estará na cidade luz? Terá corrido tudo bem?

 

Verão de 2010 longe daquela janela do terceiro. De dentro dum Mercedes 280, saiu o tal gajo de fato e chapéu, agarrou-me e atirou-me para o banco de trás onde estava outro. Arrancaram em velocidade moderada, subiram a rua do Alecrim, viraram à direita para o Chiado e meteram pela rua António Maria Cardoso. Percebi que estava na pide. Perguntas e mais perguntas, sem dormir, bom, o resto já se sabe. Pareceu-me que se passou dois dias e Caxias a seguir. Seis meses depois assentei praça e mais sete meses, estava na Guiné. Foi uma mina anti-pessoal e um trambolhão na vida.

 

Era quase uma hora e o “Califórnia” estava a encher. Ao balcão já não havia lugares vagos e as mesas estavam todas ocupadas.

 

(Nomes e situações ficcionadas)

 

Silvestre Félix

publicado por voltadoduche às 16:20

20
Jun 10

 

Naquele balcão corrido de mercearia dos anos sessenta, palpitavam as compras de quartas e quartilhos à medida da jorna barata. Faltavam dois anos para o “botas” cair da cadeira, oito para cair a longa noite e a guerra continuava lá “pelas Áfricas”.

 

O “puto” da mercearia, ou – de acordo com a tabela corporativa das profissões, artes e ofícios, publicada por uma qualquer direção geral – o “marçano”, era eu. O merceeiro, ou – conforme a austeridade dos tempos impunha – guardador do livro de apontamento ou, numa linguagem popular e fluentemente usada pelo freguês, “ o rol de fiado”, era o Ti Ramos.

 

Embora com responsabilidades, funções, idade, tamanho em altura e largura diferentes, ambos sofríamos da mesma maneira naquela tarde de 23 de Julho de 1966. Os “Magriços” estavam a perder aos 25 minutos de jogo por 3-0 com a Coreia do Norte.

 

E agora? Paciência, melhores dias virão.

 

Como testemunho do sofrimento pelas notícias que “saíam” do rádio a pilhas, o Ti Ramos pôs-me em “sentido” e disse do “alto” da sua sabedoria de merceeiro guardador do “rol de fiado”: São horas de ires levar as compras ao Casal-da-Peça. Já está tudo aviado e dentro do carro (Um eixo central, com rodas de bicicleta em cada extremo, recipiente equilibrado ao meio e um vão com a função de “guiador”). Com os “Magriços” em baixo e logo por três, lá fui em viagem de pelo menos uma hora, certo que não iria perder grande coisa.

 

Fui, e na volta, chegado ao reduto do merceeiro, vim encontrar o Ti Ramos com um sorriso de orelha-a-orelha. Bem…, pensei eu; o sobrenatural tem destas coisas e aconteceu algum milagre?

 

Tinha acontecido um milagre, Portugal tinha ganho 5-3, e passamos a ter mais um “santo”Eusébio de seu nome!

 

Muitos portugueses, passados 44 anos, estão à espera de mais um milagre. Será que os “Navegadores” vão conseguir ganhar à Coreia do Norte? A ver vamos!

 

SBF

publicado por voltadoduche às 19:24

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