A volta das voltas. Chegamos, partimos e lá voltamos sempre!

25
Nov 10

 

Saiu do quartel com mais dois colegas numa “Mercedes benz” de caixa aberta ainda não eram 8h. Era a sua vez de ir à manutenção buscar os mantimentos do dia.

Quando regressou, uma hora depois, o pessoal de serviço não era o mesmo e estranhou. A formatura era só às 10h porque é que mudaram mais cedo? Ainda estranhou mais quando olhou com mais atenção e reparou que não havia milicianos com braçadeira, estavam todas mas “mangas” de sargentos e até o oficial de dia era do quadro.

João estava escalado para entrar de serviço às 10h mas, numa consulta rápida, logo viu que já não constava. Melhor assim, pelo menos podia dormir descansado à noite.

Por volta das 9h30, ouviu-se o toque para formatura geral. Cinco minutos depois o quartel estava todo na parada em formatura. Correspondendo aos comentários que já tinha ouvido, João viu sair do edifício do comando um Tenente-Coronel com a farda cinzenta, ladeado pelo Major, antigo Segundo-Comandante e um Capitão também antigo.

Estava percebido que o nosso (antigo) Comandante, já era. João Marques, conversando com os seus botões, tentava perceber se seria melhor ou pior. Para ele, tudo o que correspondesse a mais militarismo, era mau. Rapidamente as suas dúvidas foram esclarecidas pelo discurso do novo Comandante.

Apresentou-se como novo Comandante da Unidade nomeado pelo Estado Maior por indicação do "Grupo dos Nove". Pediu a nossa adesão à nova ordem e prometeu tratamento adequado à situação. Justificou a substituição do anterior Comandante por ele não querer aderir à nova cadeia de Comando. Aplicou-se com um discurso de moral militarista, dando como exemplo a seguir e traçando-lhe rasgados elogios, o Regimento de Comandos que, como se sabia, era a ponta de lança do “Grupo dos Nove” e adversário primário dos “páras” e do COPCON.

Continuou, sublinhando o carácter definitivo das decisões tomadas que vão no sentido de melhorar a vida na Unidade. Afirmou ainda que o novo Comando ia impor as suas regras, ficando no entanto, para saber, até ao dia seguinte à mesma hora (25 de Novembro), se as aceitamos ou não. Se sim, tudo normal e a vida continua, se não aderíssemos, ou relativamente a quem não aderisse, que se comprometia a tratar rapidamente da passagem à disponibilidade sem aplicação de qualquer penalização ou castigo.

Esta “zona” do discurso agradou ao João.Passagem à disponibilidade!”

Difícil de acreditar assim, com tanta facilidade mas, havendo essa possibilidade, é a que mais interessa a João.

 

SBF

(Texto extraído do escrito “25 de Novembro do ano do PREC” de Silvestre Félix)

(Baseado na realidade, com nomes e algumas situações ficcionadas)

publicado por voltadoduche às 15:13

24
Nov 10

 

Há cinco dias que João Marques não ia a casa e só saía do quartel em serviço. Estávamos a 24 de Novembro de 1975, Segunda-Feira.

 

João estava a par das novidades pela rádio e televisão da sala de Sargentos. Calculava que a qualquer momento a situação podia piorar. A posição rebelde e inflexível dos “Para-quedistas” incendiava o País. Já era muito claro quem estava com quem. Desde o fim-de-semana que várias organizações populares, como comissões de moradores e de trabalhadores que, duma forma completamente irresponsável, começavam a abancar à porta dos quartéis afetos ao COPCON, pedindo e, nalguns casos exigindo, armas. A nossa Unidade não estava com o “Grupo dos Nove” e, já no Sábado, se percebeu que o Comandante estava inseguro relativamente à sua permanência aqui no Regimento e, por outro lado, à continuação da existência do COPCON e ao destino do seu Comandante.

 

Nada disto agradava a João. Por um lado, nunca quis, não queria nada com tropa. Detestava farda, armas, tudo o que fosse militar. Só assentou praça porque foi obrigado. Por outro lado, o perigo de haver confronto com armas assustava-o muito. Era pacífico dos quatro costados e não admitia, contrariando muito a onda e o ambiente do PREC, qualquer tipo de violência. Ainda ficou pior porque uma das irmãs foi ao quartel saber como ele estava e ver se precisava de alguma coisa. Preocupação natural da família. Para quem ia todos os dias a casa, estar cinco dias sem aparecer não era pacífico.

 

SBF

(Continua)

(Texto extraído do escrito “25 de Novembro do ano do PREC” de Silvestre Félix)

(Baseado na realidade, com nomes e algumas situações ficcionadas)

publicado por voltadoduche às 17:50

22
Abr 10

Naquele Abril revolucionário, todos os problemas se iam resolver, os portões do paraíso na terra estavam escancarados, nunca mais haveria fome, nunca mais haveria guerra, nunca mais haveria PIDE.

 

“As portas que Abril abriu” não mais se fechariam, os patrões e os empregados haveriam de se abraçar, o general e o soldado haveriam de comer à mesma mesa, o capitalismo e o estado social haveriam de estar juntos na recuperação económica, o político e o normal cidadão haveriam de vestir a mesma camisola.

 

Portugal levaria a lição ao mundo, e seriamos o povo mais feliz do universo.

 

A história cumpriu o seu dever e rezou, mas… Como é possível, tanto tempo contado em anos desde a revolução dos cravos, que se descubram inúmeras “portas” que, ou nunca chegaram a ser abertas, ou, depois de abertas, voltaram a fechar-se?

 

O Artigo primeiro da nossa Constituição diz assim:

 

Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

 

Será que estamos a falar do mesmo País?

 

 

“Capitão de Abril, Capitão de Novembro” do Coronel Sousa e Castro, demonstra com muita precisão alguns exemplos do que acima disse. Sousa e Castro faz um relato factual dos acontecimentos, desde a criação do Movimento dos Capitães em meados de 1973, até ao rescaldo do 25 de Novembro extensivo à revisão Constitucional de 1982, altura em que acaba o Conselho de Revolução. À medida que dá conta das ações em que interveio ou que conheceu, faz a sua interpretação objetiva e subjetiva, e acompanha com documentos.

 

O Capitão (à época) Sousa e Castro, fez parte do Grupo dos Nove, que, em pleno Verão Quente de 1975, se uniu em volta dum projeto moderado – Não alinhados com o Partido Comunista nem com a extrema-esquerda, e advogando respeito pelo resultado eleitoral de 25 de Abril de 1975 para a Assembleia Constituinte. Embora simpatizando com a ideia de “socialismo democrático”, nunca quiseram (enquanto grupo ou movimento) confundir-se com o Partido Socialista, antes pelo contrário, as relações com a direcção do PS, nem sempre foram calmas.

 

O Movimento dos Nove, que o autor (e a história) considera vencedor em 25 de Novembro, viria a ter dificuldade em travar a cavalgada de alguns setores militares conservadores que nunca foram entusiastas do que aconteceu em 25 de Abril. Sousa e Castro, Vasco Lourenço, Melo Antunes, Ramalho Eanes, Franco Charais, Pezarat Correia e principalmente o Presidente da República, General Costa Gomes e ainda outros defensores da mesma linha, foram decisivos para cortar “o passeio” da extrema-direita militar e civil neste Novembro de 1975.

 

No 36º aniversário do 25 de Abril, aconselho a leitura deste livro que é edição da “Guerra e Paz”, a primeira em Novembro de 2009.

 

O Coronel Rodrigo Sousa e Castro nasceu em 1944 no Alto Minho.

 

SBF

 


26
Nov 09

 

E os cravos continuaram nos canos das espingardas!
Para mim, este dia de Novembro, tem sempre falta de qualquer coisa. Provei essa falta de… qualquer coisa, com os meus 21 anos, é claro que hoje o tempero é diferente. Em 1975 tudo era mais puro, não havia tanta refinação, e os sabores eram mais autênticos.
O 25 de Novembro de 1975, corresponde ao final do que historicamente se conhece por PREC (Processo Revolucionário Em Curso), iniciado com a Revolução dos Cravos em 25 de Abril de 1974. Ainda não reza na história tudo o que se passou em Novembro de 1975. Objectivamente o que aconteceu foi que; os pára-quedistas, afectos à ala mais à esquerda no MFA, identificada com Otelo Saraiva de Carvalho e o COPCON, ocuparam instalações militares fazendo exigências de toda a espécie, afrontando as chefias e o VI Governo presidido pelo Almirante Pinheiro de Azevedo. Do outro lado estava a outra ala moderada do MFA, conhecida por movimento dos nove e, aparentemente orientada pelo Major Melo Antunes.
Estas duas sensibilidades, que do ponto de vista político têm a fronteira no PS para a esquerda e no PS para a direita incluindo o próprio PS, estiveram muito perto de se envolverem numa luta fratricida pelo poder. A guerra civil esteve por um fio.
Quando parecia estar tudo perdido, só faltava atirar o primeiro tiro, surge a autoridade do General Costa Gomes, Presidente da República, chamando a Belém os principais inspiradores das correntes em litígio, conseguindo concentrar em si o comando das operações, declarando o estado de sítio e evitando o banho de sangue dado já como inevitável.
Independentemente das movimentações militares, comandadas no terreno por Ramalho Eanes e que nalguns casos se excedeu no zelo, o grande responsável pela NÃO vitória de nenhum dos lados, foi, o Já falecido Marechal Costa Gomes. A história, ainda não fez contas com este homem e começa a ser tempo de o fazer.
Eu, militar naquela altura, como acontecia com a generalidade da tropa, estava num dos lados e, como é normal, estava convencido da minha verdade. (O meu 25 de Novembro)
SBF
publicado por voltadoduche às 00:51

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