A volta das voltas. Chegamos, partimos e lá voltamos sempre!

23
Jun 09

 

LONGE DE MANAUS

De Francisco José Viegas

 

Mais uma vez, o detective Jaime Ramos, que acompanha o autor em anteriores policiais, tem em suas mãos a investigação dum homem encontrado morto perto do Porto.
A partir deste acontecimento, o autor leva a investigação a um cruzamento de locais e personagens espalhados pela abrangência da lusofonia, com travessias constantes do atlântico, no fundo, é a triangulação da ligação através da mesma língua, independentemente de ser falada nas ruas de Luanda, de Bissau, do Rio de Janeiro, do Porto ou de Manaus, em pleno coração da Amazónia.
O detective Jaime Ramos, como é costume nas outras obras, é um contador e inventor de histórias que delicia o leitor e, tal como a ele, ajuda no encaminhamento da vida.
O autor consegue dar-nos a imagem; dos locais, das pessoas e dos sentimentos, como nenhuma imagem verdadeira consegue.
Boa leitura!
Francisco José Viegas nasceu em 1962. Longe de Manaus, faz parte da colecção “Finisterra” das Edições ASA e a 1ª edição foi publicada em Abril de 2005.
SBF
(Foto: Capa do Livro)
publicado por voltadoduche às 00:48

 

Daquela janela do terceiro andar observava os vidros do número sete da “Bensaúde” e, no último piso, as águas furtadas com o acesso ao estendal da roupa que, beijando o sol da manhã pela nascente, incentivava o olhar alegre e penetrante enquadrado num sorriso arrepiante de paixão.
O sol no enfiamento da do alecrim até ao Camões, dava o pretexto para descer até ao “Califórnia” com as lulas recheadas, o bitoque ou o bife à café. Findo o lauto, e o cumprimento de despedida para o António e o Chico das mesas, saindo pelo caminho dos da carris, o “Brithis Bar” e o tubo cromado acompanhando o balcão em cima e em baixo para posar o sapato, o relógio de parede com as horas ao contrário e aquela gravura centenária do veleiro do agente vizinho. O digestivo, e o Vicente, o digestivo e o Oliveira (cliente) porque o Oliveira (barman), por esta altura, já não fazia parte dos vivos. O digestivo e o Caparica, o digestivo e o Zé Manel e o Mendes e o Louro e o Milheiro e o Nunes e…
O “gravateiro” chinês e o cauteleiro com a terminação. Fatos, gravatas e sapatos engraxados. Último quartel do almoço, pela esquina do corpo santo até à Ribeira das Naus e a relva da borda d’água. O Tejo naquele dia corria para a barra e o cacilheiro navegava ao contrário para chegar ao cais do Cais do Sodré.
O Tejo e o mar da palha. A água forma pequenas ondas que vão batendo nas pedras da margem. Falando, olhando, rindo, rosário de Maria, e eu, na direcção contrária à corrente até ao cais das colunas. O olhar da alma e o sorriso e eu e rosário de Maria voltando no enfiamento da do alecrim. Eu menino, ela menina, e os dois alegres e felizes.
Eu estava naquela janela do terceiro andar.
SBF
(Foto: Praça Duque da Terceira em Lisboa - Wikipédia)

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