A volta das voltas. Chegamos, partimos e lá voltamos sempre!

04
Jun 13

 

Da janela do terceiro andar conseguia ver o mundo e o céu. Também via o “escondidinho” e, movendo os maxilares em seco, saboreava a boa bifana. A toda a hora ouvia o pregão do cauteleiro e o premiado número da “Casa da Sorte”. Daquela janela encarava a porta do “Bensaúde” e, na outra margem, a doca seca da “Lisnave”. Os cacilheiros, as faluas e as fragatas mostravam-se num vai e vem sem fim. Pelo lado dos Remolares apareciam os carregadores da “ribeira” com os hortícolas coloridos e as varinas com os pescados de fresco na costa que ainda era nossa. E as vieirinhas do “Porto de Abrigo”? Do terceiro andar, à janela, enfrentava os estendais de roupa a tapar as vistas para as águas-furtadas. E o digestivo do Brithis que o careca e simpático Oliveira servia com rigor minimalista? E o gravateiro chinês, e o engraxador do Califórnia e o paleio do António ao mesmo tempo que trocava as mãos com o bife à casa e as lulas recheadas? Lá, do terceiro andar, mesmo que não estivesse à janela, adivinhava as tretas atiradas pelo Man’el porteiro metido naquela fardeta cinzenta com direito a boné à polícia de pala em rijo cartão forrado. Sempre queixoso como se toda a gente lhe devesse. Sempre o pior parceiro para a “sueca” no armazém, lá, no terceiro andar, no mesmo da minha janela. O Vicente, eu, o Catarino e o Nunes “babávamos” pelo carvoeiro e as sardinhas assadas. As melhores. E mais tarde, porque antes era menu caro p’ra curta féria, o Rio Grande e o frango assado no espeto e o tinto do Cartaxo também viria a fazer parte do roteiro. Debaixo da do Alecrim, corria a Nova do Carvalho que só acordava lá para a hora de almoço com os neons hesitantes. Os marujos e os magalas sempre animavam a noite e sonhavam com amores perdidos numa enxerga de quarto de lavatório e bidé avulso na pensão contratada.

 

 

De braços cruzados no parapeito conseguia ver, de olhos fechados, o outro lado da cidade. O cheiro a combustível e o sonoro das turbinas dos B 747, B 707, B 727, DC 10, etc., etc., desmultiplicando no fundo da pista. O Castelo Branco que mal sabia que outro, muitos anos mais tarde, não acrescentava pergaminhos à graça com nome de digna cidade beirã, com toda a sabedoria do muito tempo contado em anos, lá desenrascava a carta de porte do cliente mais exigente. Em modos de sono primário, a partir da janela do terceiro andar, sentia o piso irregular, que sempre me pareceu estar ao contrário, daquele terminal do edifício dezassete. O Nelson do Aguinaldo desalfandegava e queria sempre o maldito BRI que ia e vinha deduzida a cota para a próxima. O “metro” até ao Areeiro e no primeiro andar do 8 ou 44 no verde da “Carris”. De lá, do terceiro andar bem perto do Tejo a horas certas do relógio da esquina do Duque da Terceira e do outro, do “Brithis Bar”, que anda ao contrário, via a escadaria e a fachada dos anos trinta. Subindo, era por ali que entrava, passava pela tabacaria arrastando o vício num pacote de nicotina e lá seguia o caminho e os tapetes, as malas, e, mais à frente, o hangar, as paletes e os contentores e sempre, até hoje, como se lá estivessem, os saudosos cheirinhos e barulhinhos. 

 

De qualquer janela dum terceiro andar podia, fechando os olhos, sentir o cheiro de África e da terra moçambicana quando a pista de Mavalane me recebeu pela primeira vez. Muito provavelmente porque o Tejo me guiou pelo ar como se navegando fosse pela frente de Belém e dos Jerónimos e saísse pela mesma barra dos antigos navegadores. Podia ter sido, só não fui conquistador e, antes, conquistado.


Naquele tempo não sabia mas, a Lusofonia, era, e é, o caminho.


Mesmo duma simples janela dum terceiro andar do Cais do Sodré donde via tudo e mais alguma coisa, em mim morava esperança e crença no que aí havia de vir mas, como se percebe, nunca imaginaria ver uma parada militarista em pose prussiana desfilando pela Ribeira das Naus e formar em conjuntos quadrangulares no Terreiro do Paço.

 

Nestes tempos de agora, a tribuna de honra continua a estar numa das alas da Praça mas, a conquista, bem cultivada em laboratório e, ignorando o equestre D. José, traveste-se e apresenta-se de escuro fato, gravata e pasta na mão.   

 

Silvestre Félix

(Fotos: Imagens google)

publicado por voltadoduche às 16:14

19
Fev 13

Pela janela daquele terceiro andar conseguia ver o mundo.

 

Via, como tantas outras vezes já disse, o Tejo desde a ponte até à margem do Montijo e Alcochete. Na correria desalmada das marés, enchentes ou vazantes, acompanhava o vai e vem dos cacilheiros, um ou outro grande petroleiro arranjando direção para se enfiar numa das docas secas da Margueira ou esperando, quietinho, ao largo no grande Mar da Palha pelo lado esquerdo do meu ângulo de visão, ainda uma ou outra vela banda duma velha falua ou de simples bote pesqueiro na chegada ao cais.

 

Conseguia ver, daquela janela do terceiro andar, o ajuntamento desembocado pelos chegados de comboio e que contavam subir a colina pela do Alecrim de amarelo ou então tomarem lugar no 22, 44, 45 ou 8 da Carris para o miolo da Capital. Vi, porque ainda estava na janela do terceiro andar, os protagonistas da Revolução. A multidão cada vez engrossava mais e os militares entravam na praça vindos da rua Bernardino Costa e Arsenal. O meu mundo, naquele dia e visto da janela do terceiro andar, era da cor da vida, da esperança. Os vivas de apoio invadiram o terreiro ao cais e ascenderam ao Camões e ao Chiado com a velocidade de um sopro porque eu vi e senti desde a janela daquele terceiro andar.

 

O cais do Sodré e da Ribeira foram testemunhas do que consegui ver da janela daquele terceiro andar. Tudo ia ser possível e não voltava a ser preciso forrar a capa dos livros e esconder a primeira página do vespertino “A República”. Os cravos, ainda naquele dia, iam nascer pelas espingardas e a “Grândola Vila Morena” do Zeca Afonso ia ser rainha das cantorias da Liberdade e muito tempo depois contado em anos, seria hino revolucionário cantado em toda a Península Ibérica, desde o parlamento no Palácio de São Bento às manifestações nas ruas de Madrid.

 

Silvestre Félix


15
Jul 12

Os passantes não param! Andam, andam…quase correm para não chegarem atrasados ao trabalho, se for de manhã, ou ao comboio, se for ao final do dia. O bitoque do Califórnia fica para quem lá está e o digestivo do Brithis Bar fica para os que lá vão…e não são os passantes…na paralela o Tejo sempre acompanhava o andamento olhando para a doca da “Lisnave” que rivalizava em visibilidade com o Cristo Rei.


Observando e ouvindo aquelas passadas com ritmo certo e habituado ao terreno todos os dias pisado.

 

Tantos rostos cruzados, tantos olhares vistos e a escuridão permanece!

 

A Intersindical, acabada de nascer, ainda não era CGTP. Os bancários já andavam em luta e atenderam aos balcões de gravata preta. A pide que era DGS, ouvia, prendia e torturava e os militares continuavam a chegar ao cais de Alcântara e Rocha para um navio a abarrotar os levar até “às Áfricas”. Tudo acontecia lá sem se saber muito bem o quê. Por cá, todos os dias lá passavam à frente mas não sabiam nada do Brithis Bar nem do Califórnia, quanto mais das Guerras “nas Áfricas”.

 

Só algum tempo mais, contado p’raí em três ou quatro anos, os passantes viram os enormes caixotes de madeira descarregados e deixados no mesmo cais donde embarcavam os “magalas”. Viam os caixotes com nomes escritos em parangonas mas não imaginavam que, dentro de cada um deles, estava uma vida inteira.


Daquela Janela do Terceiro Andar, conseguia ver o tempo…


Silvestre Félix

publicado por voltadoduche às 17:39

13
Fev 12

Pela janela daquele terceiro andar, ouvia o barulho da cidade, da maré a subir o Tejo e inalava o agradável e fresco odor da Ribeira.

 

Com os cotovelos no parapeito daquela janela do terceiro andar acompanhava o movimento solar e o lançamento de âncora, bem no meio do mar da palha, do grande petroleiro na fila da doca seca.

 

Daquele andar, terceiro se contado pela do Alecrim e tão alto que a minha janela dava para as águas furtadas do da frente, cheirava a sardinhas que já assavam no carvoeiro da esquina da das Flores com a de S. Paulo.

 

Naquela janela ficava, observava, sentia e adivinhava quem se transportava nos amarelos, nos verdes de dois pisos, nos táxis e nos carros pretos do estado.

 

Da janela do terceiro andar podia contar as peças de roupa que secavam nos estendais e beirais nos telhados dos outros prédios.

 

Eu sei que foi daquela janela que quis ver o mundo. Corri, fui ver e o tempo também correu.

 

Correu e não dei por isso!

 

Silvestre Félix

publicado por voltadoduche às 23:44

27
Fev 11

A mim, o que me sabia mesmo bem era o bitoque. Havia dias que escolhia outra coisa só para variar, nunca para substituir o bitoque. Sai um bitoque especial! Gritou o Marinho para a cozinha. Acompanhava com uma imperial especial de corrida tirada pelo António que, naquela 5ª feira, e desde que me sentei ao balcão há um quarto de hora, já discutiu com o Chico aí uma dúzia de vezes.

 

Ao meu lado direito, estava o Artur Caparica que continuava preocupado com a sensação de andar a ser seguido por um gajo de fato e chapéu de abas. No mesmo dia de manhã, sem ninguém por perto, tinha-me contado que, com um primo, estava a pensar dar o salto para França para não ir à tropa. Deu-me a entender ter a certeza de não querer ir para a Guerra e, a única solução, era pirar-se daqui para fora.

 

À luz daquela janela do terceiro andar, li no Diário de Notícias que, amanhã, num qualquer dia e mês de 1973 mas de certeza a uma 6ª feira, levantaria ferro do cais da Rocha Conde de Óbidos o navio “Niassa” com militares portugueses com destino a Moçambique. Acrescentava ainda a notícia que, "a defesa daquela parcela do território nacional, como o iam fazer estes valorosos soldados, sargentos e oficiais, era um desígnio patriótico a que nenhum português se pode furtar”.

 

Os sucessores do “botas” continuavam fiéis aos seus ensinamentos.

 

Na 6ª feira o Caparica não apareceu ao trabalho e o mesmo aconteceu na semana seguinte. Da janela do terceiro andar, olhando para Cacilhas e Almada, tentava imaginar o que lhe teria acontecido. Estará na cidade luz? Terá corrido tudo bem?

 

Verão de 2010 longe daquela janela do terceiro. De dentro dum Mercedes 280, saiu o tal gajo de fato e chapéu, agarrou-me e atirou-me para o banco de trás onde estava outro. Arrancaram em velocidade moderada, subiram a rua do Alecrim, viraram à direita para o Chiado e meteram pela rua António Maria Cardoso. Percebi que estava na pide. Perguntas e mais perguntas, sem dormir, bom, o resto já se sabe. Pareceu-me que se passou dois dias e Caxias a seguir. Seis meses depois assentei praça e mais sete meses, estava na Guiné. Foi uma mina anti-pessoal e um trambolhão na vida.

 

Era quase uma hora e o “Califórnia” estava a encher. Ao balcão já não havia lugares vagos e as mesas estavam todas ocupadas.

 

(Nomes e situações ficcionadas)

 

Silvestre Félix

publicado por voltadoduche às 16:20

06
Jan 11

Pela janela do terceiro andar posso ver o mundo espelhado nas águas do Tejo, na perspectiva que me apetecer, da vazante ou da enchente. Mais do que isso, é a capacidade do “Cacilheiro” que transporta o tempo sempre muito bem contado e pesado, não vá o diabo tecê-las.

 

Galgando lá para a frente, mesmo pela janela do terceiro andar, não consigo ver com a mesma clareza as imagens muito coloridas e com os contornos bem vincados. Agora, com muito tempo contado e transportado, tudo está envolto em neblina sem se saber onde é o princípio e o fim.

 

Neste sítio, depois da contagem, deixaram de chamar ao pagamento do trabalho, “féria” ou “jorna” e passaram a dizer-me que é “ordenado” ou “vencimento”. Qual é a diferença? Não será a mesma coisa?

 

Se calhar não!

 

Aqui e agora, o que se diz antes do tempo contado pode não ser a mesma coisa que se diz depois do tempo contado. É como se vê espelhado na correnteza do Tejo:

 

Nas mesmas águas se lêem imagens distintas, consoante sobem ou descem. O que é verdade num momento é mentira noutro!

 

Daquela janela do terceiro andar a um passo (de gigante) das águas-furtadas,

 

via sempre a mesma verdade!

 

SBF

publicado por voltadoduche às 17:29

15
Dez 10

 

Olhando pela janela do terceiro andar em dias de luz lisboeta intensa de Primavera prometida, conseguia medir o tempo em horas, marcando, em linhas verticais, a passagem do Sol. Primeiro de manhã, beijando o estuário do Tejo começando pelo Mar da Palha até à direção de Cacilhas, depois, por cima das águas-furtadas e, por último e pela direita, lá se escondia atrás dos prédios.

 

Na janela do terceiro andar, ouvindo o “telim-telim” do amarelo que subia e descia a do Alecrim, sentindo e adivinhando os idos e entrados no Bragança, o meu peito ofegava e enchia-se de luz porque a Primavera ainda podia vir. O “Cacilheiro” que vem e a “Falua” que vai, completam a cena da tela cheia de cor e vida prometida.

 

Até o da Terceira que era Duque e antes de Vila Flor e se empenhou na empresa para recuperação da Constituição Liberal de 1822 em nome do Regente, Imperador dos Brasis e Rei de Portugal batizado de Pedro umas vezes primeiro outras quarto, mas sempre o mesmo, até esse… naquela posição de combatente depois da miguelada e vilafrancada absolutista e reacionária. Até ele teve a sua Primavera e admira e é admirado por todas as janelas da Praça e também pela do terceiro andar.

 

Até o Bernardino Costa, herói Bombeiro da Cidade e, por isso, com muita coragem, consegue abraçar o bom, o mau e o assim-assim, destes quarteirões, das gentes em vai e vem p’rós lados dos “pouca-terra, pouca-terra” mais o Tejo que corre sempre cheio depressa na vazante, não vá a Primavera chegar, até para lá de Belém e de Pedrouços até à Barra depois de passar o Bugio.

 

À mesma hora, diziam que o ditador de botas estava a dar o último suspiro!

 

No terceiro andar, pela janela virada ao Sol, eu, por momentos, horas e dias, acreditei que era Primavera, mas não veio, ficou ainda Outono e Inverno durante muito tempo contado em anos… E os lenços brancos continuaram a acenar…a acenar…e a multiplicarem-se sem parar…acenavam, acenavam e foram… e mataram e morreram!

SBF Silvestre Félix

 

(Imagem: Desembarque de militares portugueses em Luanda-1961. Internet)


06
Nov 10

 

No terceiro andar, olhando pela janela, conseguia viajar ao futuro.

 

Mais depressa do que a velocidade das águas do Tejo que, sem hesitações, corriam na direção da barra, desviando-se a seguir do Bugio, a ida ao futuro entusiasmava-me e colocava-me no melhor dos mundos com que alguma vez fosse possível sonhar.

 

O Outono Marcelista ameaçava permanecer infinitamente e nem a ala liberal conseguia transformar em luz, as nuvens que por aqui pairavam.

 

E a Guerra continuava!

 

Daquela janela do terceiro andar, conseguia saudar os do “Bragança” quando subiam os degraus de pedra da do Alecrim ou pela outra janela bem encostada à “minha”. Neste caso – tratando-se de albergue tão ilustre, não fosse pelo Eça do IXX assim tratado nos vários escritos e na “Tragédia da Rua das Flores” que, daqui consigo mirar, não a “tragédia”, mas a rua – dada a circunstância de, em vez de andar para a frente, me inspirar passado, tratei de apurar aqueles momentos mágicos de recolhimento e concentração, para que as idas ao futuro saíssem muito mais certeiras do que as “revisões” em alta ou em baixa das instituições de controlo económico e financeiro, que saltitam por tudo o que é comunicação social e a toda a hora.

 

Em Alcântara-Mar, a abarrotar de Mães e Pais, Irmãos e Irmãs, Mulheres e Filhos, que, por sua vez, se multiplicavam em lenços brancos marcados pela saudade antecipada. O “Niassa”, apontado ao corredor da barra, separava-se do Cais, e de verde azeitona colorido lá começava a dobrar a ondulação em sintonia com os silvos estridentes assinalando a partida.

 

A Guerra ainda estava lá!

 

De Salazar se fez Caetano e da Primavera se fez Outono!

 

Doze dias depois, outro Cais em África, muita gente mas agora é a chegada. A bordo só fica a esperança no regresso. Fora de bordo está o desconhecido, a ansiedade e muitas vezes o medo e o desespero.

 

Pela janela do terceiro andar, numa das idas ao futuro em muito tempo contado em anos e a do Alecrim em fundo…

 

Com intermitências, conseguia perceber as imagens, mesmo foscas, duma SOBERANIA desanimada e indefesa perante um gigante louro de olhos azuis, fêmea q.b. e vestimenta colorida. A servir de ESCUDO, o gigante trazia uma plataforma de coesão que, quando muito bem entendia e porque tinha todo o poder e dele fazia o que queria, a transformava em arma de arremesso, mais conhecida como MERCADO, com um alcance periférico sem limite de distância e vergonha. Embora um pouco encobertos pelo gigante que os protegia, dava para ver, sempre a crescer, os peões que me sopraram chamarem-se JUROS. Estes peões iam avançando no tabuleiro de xadrez que agora via claramente, enquanto o gigante se resguardava entre as TORRES DE BRUXELAS. Os JUROS conseguiram ameaçar as defesas da SOBERANIA que, num último momento, se aguentou e recuperou até algumas linhas no tabuleiro. A resistência está difícil, o XEQUE-MATE pode surgir a qualquer momento mas, enquanto há vida, há esperança!

 

Naquele terceiro andar, à janela, conseguia ver a continuação da Guerra que matou e estropiou. Conseguia sentir a emoção dos portões de Caxias e de Peniche que se abriram a Portugal. Conseguia sentir o peso dos séculos duma NAÇÃO, tantas vezes ameaçada e outras amordaçada, mas sempre libertada.

 

Da janela do terceiro andar, vi calarem-se as granadas e as metralhadoras, vi abraços fortes de liberdade e vi o fim da Guerra.

 

As portas que Abril abriu à SOBERANIA não se fecharão à esperança!

SBF


18
Ago 10

 

O rio Tejo, os cacilheiros que o atravessam, ainda uma ou outra falua de vela esticadinha, a doca seca da Lisnave, os passageiros que saem do que atracou no Cais do Sodré deste lado e que correm para os verdes de primeiro andar e para os amarelos, os que saem e entram da estação de comboios, o trânsito que atravessa a praça nos dois sentidos inversos da Ribeira das Naus e da 24 de Julho, a varina e o pregão que, se não vejo, oiço, o rodas-baixas marreco com a sorte-grande na mão, o ardina que não vejo mas adivinho, o roçar dos carris dos amarelos começando a subir a do Alecrim em direção ao Camões, o Bragança do Eça e a das Flores da sua tragédia e do Bulhão Pato, a Inglesa e a Britânica de tabacos e valores selados, a Anglo-Americana o Olímpio e os livros, o bitoque e o bilhar do Califórnia, o digestivo e o pãozinho em sandes de chouriço e o ginger-beer do British-Bar, a bica e os bolos da Caneças e da Zarzuela, o frango-assado do Rio-Grande, as aguardentes e cervejas do Atlântico e as águas-furtadas dos da frente com estendais coloridos que procuram brisa ensolarada e encontros furtivos na confusão dos passantes na Bernardino Costa e na do Arsenal.

 

É o filme da vida chapado no ecrã que eu vejo daquela janela do terceiro andar.

 

A fita é longa e passa muito tempo contado em anos.

 

Agora, os passantes na Bernardino Costa e na do Arsenal são tão poucos, que já nem tem confusão. Os prédios da Praça estão muito vazios, muito degradados e muito pobres. A minha janela do terceiro andar não tem inquilino, o Olímpio dos livros não está, o Bragança está a cair, o Califórnia não existe, o ardina também não e o marreco não se ouve.

 

O tempo rouba o melhor da vida!

 

Silvestre

(Foto: Net)

publicado por voltadoduche às 17:15

16
Set 09

 

Daquela Janela do terceiro andar, via as silhuetas e os passos apressados. Iam e vinham do comboio conforme o relógio da “Ribeira das Naus” marcava. Daquela janela, sentia a vida, sentia a felicidade, sentia a tristeza, sentia a ansiedade do princípio dos anos setenta, sentia a chegada do fim da ditadura.
Daquela janela do terceiro andar, conseguia ver as entradas e saídas do “Bragança”, porta do lado já escolhida pelo Eça, pelo Bulhão Pato e por outros das andanças romanescas do ido século IXX. Daquela janela, até via a outra paralela, da do Alecrim, a das Flores, que também o Eça tinha escolhido para palco da “tragédia”, só chegada aos escaparates por este nosso tempo e lido com avareza e entusiasmo. Do terceiro andar, todos os dias via o brilho do sol que me carregava de sonhos e esperança.
Daquela janela do terceiro andar, o tempo, contado em alguns anos, levava a juventude para a verdade dura da vida. Naquela janela, vi, ouvi e pensei o bom e o mau, o feliz e o infeliz, o amor e a indiferença, o trabalho e o lazer, o bonito e feio.
No terceiro andar, aquela janela, foi a grande encruzilhada da vida!
SBF
(Foto: Praça Duque da Terceira em Lisboa - Wikipédia)
publicado por voltadoduche às 17:37

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